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O Cardeal Robert Sarah celebrando uma missa. Fonte: Blog Senza Pagare.

Por que o novo Papa não será africano?

A África, hoje, é o continente com o maior número de cristãos no mundo. De acordo com um estudo internacional do Seminário Gordon-Cowell realizado em 2018, o número de cristãos africanos atingiu a marca de 631 milhões, superando os 601 milhões da América do Sul. Mesmo assim, como educador africano e conhecedor da cosmovisão africana, acredito que o próximo Papa não será africano.

É possível que eu me engane — e confesso que adoraria estar errado —, mas os elementos históricos, políticos, espirituais e simbólicos me conduzem a essa conclusão. Neste artigo, quero te mostrar por quê.

Já tivemos um Papa africano?

Sim. Na verdade, já tivemos três Papas africanos. Mas isso aconteceu nos primeiros séculos do Cristianismo, entre os séculos II e V:

  • Papa Victor I
  • Papa Miltiades
  • Papa Gelásio I

Todos esses Papas vieram do norte da África. Isso não é coincidência.

A influência espiritual do Egito antigo

Se analisarmos a história africana a partir da constituição do Império de Kemet (Egito Antigo), entendemos melhor esse fenômeno. Quando o Rei Narmer (também conhecido como Menes, pelos gregos) unificou os povos do Nilo Alto e Nilo Baixo, ele estabeleceu como sua capital Men Nefer, chamado de Menfis pelos gregos. Era também um polo espiritual.

Ali foi construído o templo chamado “Hwt Ka Ptah”, ou seja, “Templo da Essência de Ptah” — Ptah sendo um dos nomes dado a Deus em Kemet. Isso significa que, três mil anos antes do cristianismo, a África já contava com templos, ritos litúrgicos, espiritualidade estruturada e uma cosmovisão complexa.

É compreensível, então, que os primeiros Papas africanos viessem dessa mesma região, onde o legado espiritual africano já era milenar.

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Então, por que acredito que o novo Papa não será africano?

1. Cosmovisões opostas: Europa x África

A espiritualidade não nasce das instituições, mas da forma como um povo compreende e se relaciona com o Universo — sua cosmovisão. E é aí que encontramos o primeiro obstáculo: há uma oposição profunda entre a cosmovisão africana e a europeia.

  • A cosmovisão europeia, através do seu paradigma, é centrada no individualismo, no materialismo e na busca pelo poder de dominação.
  • A cosmovisão africana, através do seu paradigma, se estrutura no SER, na comunidade e na harmonia com o universo.

A pergunta que fica é: o Vaticano e o mundo ocidental estão prontos para aceitar um Papa com cosmovisão africana?

2. O conflito interno de um Papa africano

Mesmo que um africano seja eleito, ele enfrentaria um conflito interno gigantesco. Estaria esticado entre dois mundos: o da estrutura católica europeia e o de sua ancestralidade e valores africanos. A não ser que renuncie às suas origens e vire definitivamente as costas para seus ancestrais.

Um exemplo pessoal: na paróquia São Miguel de Togoudo, na república do Benin, berço do Vodún, há uma grande estátua do arcanjo São Miguel pisando na cabeça do demônio. O detalhe? São Miguel é branco e o demônio, negro. Essa iconografia racista ainda persiste em muitas partes do mundo — inclusive na própria África.

É possível imaginar um Papa africano convivendo com isso, em silêncio?

3. Vaticano, política e poder

Basta observar os funerais do Papa para perceber a presença massiva de chefes de Estado e líderes políticos do mundo inteiro. A Igreja ainda é um dos maiores centros de poder simbólico e político do planeta.

Agora, pense: será que essas forças políticas aceitam reverenciar um Papa africano retinto, como o cardeal Robert Sarah (Guiné)?

Os cardeais africanos no Conclave

Entre os possíveis papáveis africanos, temos:

  • Cardeal Peter Turkson (Gana)
  • Cardeal Fridolin Ambongo (Congo)
  • Cardeal Robert Sarah (Guiné)

São homens de fé, cultura e trajetória brilhantes. Mas o sistema permitirá que um deles assuma o mais alto posto da Igreja Católica?

A humanidade está cansada. E precisa de um novo caminho.

Vivemos uma época de guerras, crises, perdas e desesperança. O planeta está exausto. E muito disso vem da imposição de uma lógica individualista e consumista.

Se quisermos uma mudança real, ela não virá da Europa. A semente está em outra parte do mundo — talvez na própria África.

A pergunta final que deixo para você é:

Você acredita que a espiritualidade africana pode ajudar a guiar uma nova era para a humanidade?
Você aceitaria ver um Papa africano?
Comente, compartilhe, e vamos abrir esse diálogo.

Sugestões bibliográficas

Center for the Study of Global Christianity at Gordon-Conwell Theological Seminary, « Global Christianity », 13 avril 2019, URL https://www.gordonconwell.edu/wp-content/uploads/ Consulta no dia 30/04/2025

DIOP, Anta Cheikh, Antériorité des civilisations Nègres : Mythe ou Vérité Historique. Paris, Présence Africaine, 1967.  

OMOTUNDE, K. Nioussérê. Cosmogénèse Kamite. Tome 1, Guadeloupe, Anyjart, 2015.  

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